top of page
  • Instagram
  • Pinterest
  • Youtube
  • TikTok

⋆⊱༻༺⊰⋆ ୭˚. ⋆

20 de set.
6 min de leitura

o que é preciso para escrever um texto sobre amizade, referências compartilhadas e a hel? no meu caso, foi necessário um banho usando o sabonete para dias especiais, colocar o void top com um sutiã rosa push-up por baixo, passar uma sombra levemente prateada e escovar meu cabelo. alguns minutos cantando na frente do espelho também. e escolher um livro companheiro, para, em emergências criativas, ser socorrida por partes que um dia sublinhei.


*********


há pouco mais de 7 anos, nós - eu e a hele - nos conhecíamos numa sala de aula do senai. foi uma coisa mais ou menos assim: “oi, eu sou a helena” “aaaaaa eu sou a myrian helena” e pulinhos e hihihihihihi das duas partes por descobrir o nome compartilhado. alguma conexão muito sincera aconteceu e imediatamente viramos amigas. em seguida, ela foi me entregando as roupas mais lindas para vestir: um vestido preto midi com muitas amarrações nas costas, forro num tom azul acinzentado e alças fininhas, uma blusa feita com um tecido branco estruturado e, por último, uma saia preta que tinha um efeito amassado e brilhante. fiquei muito impressionada com a qualidade das modelagens e a identidade singular que estavam nas roupas e também com a forma generosa que a helena falava sobre elas. naquele dia eu tinha ido ser modelo para seu trabalho de conclusão de curso e pude ver o nascimento do que iria se tornar a HEL. 


myrian helena para HEL, 2019. primeiras peças, primeiras imagens.
myrian helena para HEL, 2019. primeiras peças, primeiras imagens.

além dos nomes, nós descobrimos outras coisas em comum, como o amor pela patti smith e por nana.  é sempre divertido ir na casa da hele, porque além de sempre ter chá de jasmim, tem sempre ela lendo alguma coisa diferente, da última vez era um livro sobre a revolução da glicose ou algo assim. fico por lá e me perco nos livros grandes de fotografia e nos quadrinhos. gosto de ver suas orquídeas também. são todas essas referências e as longas conversas com o willian, que é seu namorado e a outra metade da hel, que formam o universo helena e o imaginário da marca.


coisas que vivem na casa da helena.
coisas que vivem na casa da helena.

com o intuito de explorar esse imaginário e entender quais são as referências que acompanham o processo de criação das peças da hel escolhi começar com uma imagem específica: garotas habitando a tóquio dos anos 90/00.


para falar sobre isso, tentei pensar nas primeiras coisas que me vem à cabeça, que foram: o quarto da kagome em inuyasha, com seu futon verde e suas paredes lilases, as imagens de observação de tóquio em lost in translation, e as fotografias da hiromix. pensando um pouco mais sobre a influência da sofia coppola nas nossas construções de identidade na adolescência e na conexão dela com a hiromix, resolvi focar na relação entre essas duas.


começo com lost in translation. esse filme acompanha a trajetória da charlotte, uma protagonista duplamente estrangeira, no território e de si, em busca de uma identidade perdida. seu vazio interno contrasta com imagens de uma tóquio imensa, com ruas lotadas de pessoas, muitas luzes neons, prédios, propagandas e também santuários, karaokes e fliperamas. para entender esse sentimento, penso na abertura  do “cidade solitária”, livro da olivia laing, em que ela diz “cidades podem ser lugares solitários e, ao constatar isso, vemos que a solidão não requer necessariamente isolamento físico, mas sim uma ausência ou escassez de conexão, proximidade, afinidade: uma incapacidade, por um motivo ou outro, de encontrar tanta intimidade quanto se deseja.” e que “há um sabor particular na solidão quando se mora numa cidade grande, cercado por milhões de pessoas”.


fica claro porque é fácil se conectar com esse filme quando se é adolescente. ainda mais quando todo esse sentimento é contornado por músicas do my bloody valentine, air e squarepusher.


pam cook, professora de cinema da universidade de southampton, diz que nos filmes da coppola, estilo é substância. isso porque o foco não está no enredo, mas sim na elaboração de uma atmosfera mais longa, focada na construção dos sentimentos e das sensações. e isso, está muito relacionado com a forma que ela inicia um projeto. em várias entrevistas, ela conta que o primeiro passo é reunir referências visuais. é só se lembrar daquela clássica foto do seu escritório cheio de pôsteres pela parede e revistas abertas. e que esse início é seguido por horas de procrastinação escutando música antes de começar a finalmente escrever. (para quem não sabe, é assim que começa o processo criativo da helena também: vagando pelo reino das imagens em busca de sensações para criar sua próxima peça.)


isso que a sofia faz é um cinema de autoria. tanto em lost in translation, como em outros filmes da diretora, essa busca por identidade é um tema constante. esse sentimento é projetado através de composições plásticas bonitas, muito emprestadas da pintura e da moda. essa construção é uma conversa direta com a formação dela própria, que, antes da direção, experimentou outros caminhos: muito jovem trabalhou como atriz, sem muito sucesso (ganhou duas vezes o framboesa de ouro),  fez faculdade de artes visuais com especialização em pintura e depois criou sua própria marca de roupa, a milkfed.


inclusive, foi essa conexão com a moda que a levou a passar um bom tempo em tóquio nos anos 90. seja para promover a milkfed, que fez muito mais sucesso no japão do que nos eua, ou para fotografar a x-girl, marca das amigas kim gordon e chloe sevigny. e nesse contato com a cena local, ela conheceu o estilo descrito como rápido, cru e ao mesmo tempo editorial da fotógrafa hiromix.



um pequeno mapa de referências: hiromix, sofia coppola, Lost in Translation e o quarto de kagome.
um pequeno mapa de referências: hiromix, sofia coppola, Lost in Translation e o quarto de kagome.

o trabalho da hiromix foi o grande marco de uma estética onde garotas, tão exploradas no imaginário japonês - e no mundo, deixam de ser apenas esse objeto da fotografia e passam a ser as criadoras. ela começou a ganhar destaque aos 19 anos, ao vencer um importante concurso da canon em tóquio: o 11th new cosmos of photography, com uma zine de 36 páginas intitulada “seventeen girls day”.


nas fotos presentes nessa zine está a sensibilidade de uma artista capaz de sentir com toda força que algo que ela amava muito estava chegando ao fim, no seu caso, os dias como adolescente. então, ela fotografou tudo. é um diário visual cheio de selfies na frente do espelho, inclusive, ela ficou conhecida como “mãe da selfie”, fotos de suas amigas, do seu gato bebendo água, do seu quarto cheio de livros e ursinhos de pelúcia, do calendário na parede, calcinhas divertidas, etc. a preocupação não era atingir uma excelência técnica, mas sim capturar toda aquela atmosfera efêmera, tanto que para fotografar, ela utilizava a konica big mini, uma câmera automática, sem muitos recursos e simples de usar. apresentando algumas fotos com o flash estourado ou fora de foco. sobre a zine, ela diz:


“o dia a dia de uma estudante de 17 anos é cheio de perigos. dias radicais. dias que passam. um triste e lamentável mundo. por que o amor dói? ROCK É MINHA VIDA. estou com medo de estar cada vez mais perto de me tornar uma adulta. eu vivo, refletindo sobre mim mesma.” (tradução minha)


assim como a coppola, o interesse da hiromix foi para outras áreas. além de ser  a responsável por essa revolução na fotografia pessoal, ela começou a trabalhar com várias revistas de moda especializadas no street style de tóquio, como a fruits e a zipper. fotografou importantes nomes da música experimental como o aphex twin e o squarepusher (sim, o mesmo que aparece na trilha sonora de lost in translation) e lançou ela própria um albúm, o Hiromix ’99, com músicas no estilo shibuya-kei, famoso por ser o resultado do pop japonês com uma mistura de influências como a bossa nova, o jazz e a música eletrônica. seu impacto cultural foi tão grande que a própria canon resolveu investir mais em equipamentos de fácil manuseio.


o mais legal é que essas duas referências da hel tiveram contato, foram justamente as fotos dela que influenciaram a estética de lost in translation. e a troca delas foi além: a hiromix fez uma pontinha no filme, aparecendo na cena em que os protagonistas vão num bar em tóquio, e a sofia, por sua vez, aparece em um retrato do primeiro fotolivro da hiro, o girl’s blue :)



****** um p.s. aquiii s2 uns 2 anos atrás o coppola pai veio pra curitiba e deu um aulão no teatro guaíra, dentre alguns conselhos, o que ele mais reforçou é que para arte ser boa ela precisa vir de um lugar extremamente pessoal. acredito que a sofia deve ter crescido ouvindo muito isso!!  

*********** um segundo p.s. para quem estiver em são paulo, recomendo a exposição que está acontecendo no ims com mais de 100 fotolivros feitos por mulheres. lá no meio tem um da hiromixxxxx :))

****** um terceiro p.s. kkk mas o primeiro vestido da HEL que provei e voltei a usar em 2025, foi justamente para um projeto pessoal que visava traduzir o sentimento de algumas músicas em imagens, e ter um vestido que fosse mágico foi essencial. obrigada, hele! por essa e todas as nossas cintilantes divertidas e faladeiras trocas s2 amo você




************


myrian helena e o primeiro vestido da hel. foto por: @dudais, 2025
myrian helena e o primeiro vestido da hel. foto por: @dudais, 2025







 
 
 

Comentários


bottom of page